sábado, 15 de janeiro de 2011

“Salve Geral”, a aposta brasileira



Quem mora em São Paulo se lembra exatamente onde estava no Dia das Mães de 2006,  quando vários presos deixaram suas celas e tomaram as ruas, livres, fazendo jus à ordem de mostrar quem é que manda. Ônibus incendiados, lojas invadidas e inúmeros postos policiais atacados. Esse cenário não assustou somente os milhões de moradores do estado de São Paulo. Todo o país – e o resto do mundo – observou atento. O medo de essa situação se espalhar era enorme. Depois de acompanhar todos os fatos, o carioca Sérgio Rezende, diretor de filmes consagrados, como “Zuzu Angel” e “Mauá – O imperador e o rei”, viu uma nova possibilidade. “Assistindo ao que acontecia, já tinha claro que esse seria meu próximo filme”, afirma ele. 

Cessaram os ataques – com ou sem acordo –, mas a idéia permaneceu e daí surgiu um filme concreto, porém não real. Rezende confirma o que vemos na tela: “Eu não retrato a realidade, minha matéria é a ficção, a poesia, com um viés de história de amor. Houve esse fato; aconteceu. O que me interessou foi que isso ocorreu no Brasil. Esse filme não dedura, não fala de ninguém, por que não existem personagens reais nele.”

“Salve Geral” conta a história de Lúcia, uma professora de piano da classe média, que após a morte do marido e outras situações que o filme não conta, precisa se adaptar a uma vida mais simples. Seu filho, Rafa, não aceita muito bem a nova situação e se envolve com o underground da noite paulistana. Em uma dessas noites, ele acaba participando de um crime pelo qual foi o principal responsável, e claro, vai parar na cadeia. A partir desse dia – que por sinal é Dia das Mães de 2005, se passa um ano de muitos acontecimentos dentro e fora da prisão. Lúcia conhece Ruiva, uma das comandantes do “Partido”, que tem como lema “Paz, Justiça e Liberdade”. O também chamado “Comando” – alusão ao PCC – vive uma briga de poder interna e ao mesmo tempo luta contra o sistema penitenciário insuficiente.
Sérgio Rezende tinha na cabeça uma idéia do filme que, segundo ele, não mudou quase nada do resultado final. “A idéia que a gente tinha no começo se realizou”, confirma.

(Coletiva de Imprensa do filme)

O filme surgiu realmente três meses depois dos ataques, durante uma viagem de carro. Repassando o que acompanhou na imprensa, o diretor se fixou em um detalhe que muitos tinham deixado passar: a importância das mulheres nos acontecimentos. “A presença da mulher nesse mundo retratado foi o que mais me estimulou. O centro do filme é o choque entre as duas grandes mulheres, Lucia e Ruiva.”

Junto com a jornalista e roteirista Patrícia Andrade, Rezende mergulhou nas pesquisas. Entrevistaram muitas pessoas, inclusive policiais, promotores e jornalistas que conheciam os fatos. Porém, apesar de retratar os bastidores do “Partido”, ele afirma que não conversou com nenhum preso envolvido. “Não achei necessário. Esses personagens estão aí, todo mundo conhece.”

Depois de esquematizar cada personagem e toda uma história, o roteiro final de “Salve Geral” estava pronto no começo de 2008. E as gravações já se iniciariam no segundo semestre do ano.

O projeto demorou para começar por necessidade de mais pesquisas e acabamento, mas também devido a presença da atriz Andréa Beltrão. “Escrevi o personagem de Lúcia para Andréa Beltrão. Só pensava nela, sem que ela soubesse e sem que eu soubesse se seria possível que fizesse o filme”, conta Rezende.

Quando você assistir a “Salve Geral”, de Sérgio Rezende, não vai encontrar muitas caras conhecidas. A não ser, é claro, que seja um grande freqüentador dos teatros paulistas. São 62 personagens com fala e a maioria veio dos palcos. Rezende explica o motivo: “Rostos desconhecidos, mas grandes artistas. Nunca cogitei atores não-profissionais. Na minha maneira de ver o cinema não vejo nenhum sentido nisso. Fui beber na maravilhosa cena teatral de São Paulo. Atores espetaculares, basicamente dedicados aos palcos, conhecidos e reconhecidos no meio teatral, mas sem o desgaste de imagem que a televisão gera.”

A intenção dos “rostos desconhecidos” é dar todo um mistério ao filme. A mais conhecida é mesmo a protagonista, Andréa Beltrão, escolhida a dedo pelo diretor. “Eu me senti muito honrada quando soube, mas não imaginava que fosse um papel tão rico. Quando li o roteiro pela primeira vez, fiquei maravilhada e comovida. Foi importante demais fazer esse filme. Depois de ‘Verônica’, é bom fazer ‘Salve Geral’ agora.”, declarou a atriz.

Outro grande destaque do longa é Denise Weinberg, que no começo da produção estava ao lado de Sérgio Rezende na escolha do elenco. “Foi um processo extremamente amador no melhor sentido, de que estava amando fazer aquilo. Há muitos excelentes atores de teatro que querem fazer cinema, mas os diretores não os conhecem", conta Denise.

Em busca de alguém para interpretar o personagem “Ruiva”, a advogada do PCC, encontrou a si mesma e fez um belíssimo trabalho. Rezende, inclusive, a elegeu a primeira-dama de “Salve Geral”, depois de tanta dedicação. Denise Weinberg assume essa posição: “Eu estou desde o comecinho desse filme. Estou orgulhosa de ter trazido essa moçada do teatro e do resultado final. Meu envolvimento é inevitável. ‘Salve Geral’ é um filhão nosso.”

O filme traz, como já dito, muitos atores desconhecidos do grande público, mas que deixaram a sua marca, com atuações fortes. Dois exemplos são os atores Lee Thalor e Michel Gomes. O primeiro interpreta o filho de Lúcia, que é responsável por mostrar o lado dos presidiários. É o primeiro papel de Lee no cinema, apesar de já ter recebido muitos prêmios no teatro. “No cinema você se comunica só com a câmera, então você tem que equalizar os sentimentos e expressões. Um gesto mínimo já diz muita coisa. Trabalhar essa diferença de medida foi muito gostoso", conta ele sobre a diferença entre teatro e cinema.

E Michel Gomes já não é estreante nas telonas. Além de participações em filmes como “Cidade de Deus” e “Cidade dos Homens”, fez o protagonista de “Última Parada 174”, de Bruno Barreto.

“Tentei fazer esse filme mais leve. Tive uma certa liberdade geral”, afirma Sérgio Rezende. Ele defende que escolheu uma maneira de filmar com um tom jornalístico, que reforçaria a narrativa do filme. “Nesse filme, a câmera não disse aos atores onde eles deveriam se colocar, nem como se movimentar. Pelo contrário, eles tiveram a liberdade de marcar suas posições e nosso trabalho era buscar as melhores soluções visuais a partir disso.”

O roteiro foi modificado por alguns e deixado inteiro por outros. Andréa Beltrão foi quem mais mudou. Segundo o diretor, todas as falas de Lúcia foram mudadas pela atriz. “Sempre tento aproximar a fala do personagem. A Lucia é misteriosa, não se expõe e tem uma habilidade para circular entre o lado positivo e o negativo. Então achei que as falas dela deveriam ser bem econômicas, precisas mesmo", defende Andréa.

Na direção de arte ficou Vera Hamburger, que coordenou todas as locações e os quase 20 cenários. Para fotografia, foi chamado Uli Burtin (de “Meu nome não é Johnny”). Kika Lopes é a figurinista, Márcio Câmara no Som Direto e Heloisa Rezende, produtora executiva.

E Miguel Briamonte é o responsável pela música tão forte no filme. Ele é do teatro – assim como quase todo o elenco de atores – e “Salve Geral” é seu primeiro trabalho no cinema.

A Produção geral ficou nas mãos de Joaquim Vaz de Carvalho (de “Zuzu Angel”).

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