Na tarde de sábado, antes mesmo da Virada Cultural começar de fato, a Livrevista conversou com a Cia São Genésio, que apresentou a peça "Minhas Criadas", no Teatro Municipal. O diretor Antonio Apolinário e as atrizes Rita Oliveira, Lya Bueno e Daniela Varotto, falaram das inúmeras questões que envolvem a história deste espetáculo durante as preparações para a aprensentação.
Antônio Apolinário – Eu me formei pela Universidade Federal de Ouro Preto e quando estava lá, participei de uma peça chamada “Criadouro”, que foi o TCC de uma amiga. O William (roteirista) morava na mesma república que eu e vendo toda a movimentação ao redor desse trabalho escreveu um texto com base na “Criadouro”, que era baseada na obra de Genet. Essa peça que ele fez foi o “Minhas Criadas”. O texto ficou comigo e depois de um tempo, quando já estava em Campinas, resolvi fazer uma leitura desse trabalho para ter uma outra visão do processo. Um olhar de direção, por que depois eu fiz bacharelado em direção. Fiz, então, a leitura com duas atrizes de Campinas e com a Rita, que hoje é uma das atrizes da peça. Resolvi fazer isso por que essa história me pegou tanto, o processo em Ouro Preto foi tão forte. Mas acabou que não foi pra frente e não se montou. A Rita ficou com o texto e também se contaminou. Passaram-se três anos e ela resolveu fazer o projeto.
Rita Oliveira – A gente trabalhava junto em um espetáculo de entretenimento e queria algo que tivesse mais a ver com a nossa cara, como atriz. E o Apolinário tinha me apresentado esse texto do William e como nós três (Rita, Daniela e Lya) tínhamos interesse em fazer um trabalho mais embasado na pesquisa, que tivesse um texto mais forte, eu mostrei esse projeto para elas e todas abraçaram a ideia. Aí, nós montamos tudo e mandamos para a lei do incentivo. Saímos do nosso emprego e acreditamos nisso. E encontramos um patrocinador que acreditou na gente. A nossa base é a cidade de Hortolândia, completamente fora do eixo, e acho que isso foi um dos pontos que ajudou o patrocinador a apostar na gente. Esse foi um dos argumentos que usamos nesse projeto: fomentar o trabalho no interior e, principalmente, em uma cidade que nem teatro tem. Cada uma de nós estudou teatro em outras cidades. Porque em Hortolândia não tem uma cultura de ir ao teatro. Não tem ninguém que vive disso. Foi uma união nossa. Inicialmente a direção era do Daniel Plá, mas ele teve que sair por causa de um trabalho e aí quem mais poderíamos chamar se não o Apolinário?
Apolinário - E acabou que chegou de novo, a história deu um retorno e voltou. Eu acho que a dramaturgia me escolheu de novo. Quase que um eterno retorno. Acabei assumindo a direção e o figurino, que é uma das minhas áreas de pesquisa, o figurino como elemento dramatúrgico. O figurino diz. Tudo diz. E a pesquisa cenográfica também acabou ficando na minha coordenação. Eu estava de passagem e fui pinçado para a peça. Às vezes a gente é escolhido.
Rita Oliveira - O projeto só foi viabilizado no ano passado e a gente estreou em outubro, em Hortolândia, nos anfiteatros das escolas municipais.
O que mais chama atenção na história na qual a peça é baseada e na própria história e estética de “Minhas Criadas”?
Apolinário - A história eu já conhecia, que é o crime das irmãs que deu origem a “As Criadas” de Genet e é um tema recorrente. Eu gosto muito da questão da metalinguagem, é uma das coisas que me fascinam muito em dramaturgia, em texto, no teatro, no cinema também. É uma das questões do teatro do absurdo que me interessam muito. E tem isso nesse texto. Por isso que resolvi que queria dirigir. Por que fica a questão da história real. Como é que acontece? São duas pessoas que trabalham em uma mesma casa, duas irmãs. França, antes da guerra. Pessoas aparentemente simples. O que fica no ar, o que faz? Por que acontece essa explosão de repente? O homem selvagem, de repente, é capaz dessa monstruosidade, daí onde tudo era paz. Minha pergunta até hoje é o que aconteceu de fato? O que a patroa fez que chegou a isso? Não se sabe o que aconteceu. O que temos de real é o crime. É um tema clássico. Eu não saberia responder por que um tema sempre retorna, por que esse assunto alimenta tanto a dramaturgia. Além de tudo, também tem uma luta de classe. Talvez o clássico tenha essa coisa interessante de sempre retornar, dá margem para o teatro, para o cinema, para a literatura.
Rita Oliveira - O texto foi criado a partir do mesmo fato que inspirou Genet, mas não é o texto do Genet. O William se baseou na história, só que ele criou em cima. Não é o fato, nem Genet. A madame de “Minhas Criadas” é a representante do olho que tudo vê. Ela é quem controla tudo. É quase um BigBrother. Ela monitora as empregadas, quer massacrar as meninas pelo dinheiro e pelo intelectual. A briga é intelectual.
Lya Bueno - Tem que colocar as criadas no lugar delas para nunca quererem tomar o lugar da madame. Ela (madame) sabe que as meninas não tem para onde ir, por que ela é tudo o que as meninas tem.
Rita Oliveira - A madame lê o fato real e decide que na história dela isso não vai acontecer. Ela tem o controle.
Apolinário – Taí a questão da metalinguagem, o texto conversa com o próprio texto.
Rita Oliveira - A France e a Irani são irmãs e tem uma relação quase incestuosa. A France é a mais sensível e tem um affair fora da casa, o que muda o relacionamento da irmã. A Irani também exerce um poder com a France, pelo intelectual. O dominado também quer ser o dominador. Elas brincam de ser patroa e também não são flor que se cheire.
Daniela Varotto - A Irani faz o mesmo papel da patroa em cima da France. E a madame fica assistindo as duas se engalfinharem.
Lya Bueno - A madame assiste e brinca com tudo.
Rita Oliveira – Ela quer é ver o circo pegar fogo.
Apolinário - E alguém faz isso com a gente. Quem dirige quem? Quem olha quem? Todo mundo responde a uma censura.
Rita Oliveira - A briga pelo poder é inerente a uma pessoa.
Daniela Varotto - A questão não é o dinheiro, é o poder.
Rita Oliveira - Tem a metalinguagem, o teatro dentro do teatro. Elas estão submissas só porque a situação exige.
Apolinário - A pergunta se abre, o que faríamos se estivéssemos no poder? A gente critica o poder, mas o que faríamos se fosse a gente? O que eu acho mais interessante é a questão da liberdade, questão do subtexto, o que tem nas entrelinhas. Você acha que pode tudo. Você faz tudo aos olhos da madame. Quem é a madame? Quem nos vê? A questão do poder. Aí já é história. Não é luta de classe, não é o drama convencional. O que eu posso? O que contempla? É um exercício contar essa história. De linguagem, de atuação. E parece que não se fecha. Não considero um espetáculo fechado. Para mim ele vai sempre abrindo, você vai tentar sempre aparar, mas vai ter sempre alguma coisa que foge. Tem o meu subtexto, tem o subtexto das atrizes. Tudo vai se unindo. Mistura todas as linguagens e o que você vê é algo híbrido e nem eu sei dizer exatamente o que é. A peça é uma pesquisa em progresso, por causa de todas as questões que lhe atravessam. Há o elemento de estranhamento, um quase inacabamento. Há refinamento, mas acontece a junção da composição dos temas. Você trabalha esse estranhamento no ator também. Adoro ouvir “nossa, tem algo muito estranho”. Adoro esse choque entre o sublime e o grotesco. Não tentar resolver o choque é justamente aí que tem o estranhamento. Não querendo ser sublime, acaba sendo. A estética permeia muito o meu trabalho. O teatro da caixa vai escapulindo de mim. Uma estética vai contaminando a outra. Parece que quer explodir. Mesmo que esteja no palco, não tem a quarta parede.
Em “Minhas Criadas”, a madame representa algo maior?
Apolinário - Essas mídias que nos observam. Tudo o que você faz, tem um email, um blog, um Orkut. Aquilo não é real, mas o peso que você dá para aquilo parece que é verdade absoluta. Não passa de um simulacro. Você cria outra persona para viver tudo isso. Eu tenho Orkut, é uma loucura. Você tem que alimentar o bicho. Imagina você não ter o que dizer? Você não tem tempo mais para ler um livro, um clássico. A coisa vai fragmentando. Tudo é muito fragmentado. Você cria uma identidade. Você mesmo não é. Parece que essas mídias tem mais peso do que o real. Você precisa criar algo imaginário para ter suporte. A realidade é mesmo muito dura. Deve ser por isso que a telenovela faz tanto sucesso. Nosso folhetim é eletrônico com horário sagrado. O que isso gera? Tenho algumas desconfianças. Isso muda o comportamento das pessoas. A belezinha é a sagrada da casa.
De que forma o público entende a peça “Minhas Criadas”?
Apolinário - Eu acho que algumas pessoas, não todo mundo, mas cada um faz uma leitura. Eu não sei como chega, por onde atinge. Mas acho que todo mundo tem uma leitura. Cada um lê e tira. Longe de mim querer deixar tudo claro. É preciso que o público faça essas leituras. A leitura da encenação. A leitura das atrizes, do figurino, da iluminação. A gente trabalha com signo. Tem muito signo. Eu acho que não tem nada dizendo “é isso”. Tem algumas questões que eu coloco, mas nada “é isso”. Eu preciso que o público leia de uma maneira. O público precisa ler a peça. Eu acredito muito na formação de plateia. Você vai educando, criando. Sempre alguma coisa fica em cada pessoa. Eu fico sempre na platéia e observo reações bem diferentes. É não estar fechado. É um aprendizado, uma troca com o público. O espetáculo é sempre diferente. Cada público é diferente. Tem que ser troca. A moeda corrente é a troca com o público, com os artistas.
Daniela Varotto - Cada público tem uma especificidade diferente. Uma dificuldade diferente.
Rita Oliveira - Tem plateias adultas mais difíceis e mais fáceis. E tem plateias infantis mais difíceis e mais fáceis. O público da escola particular que está mais acostumado e vê teatro uma, duas vezes por ano, é uma resposta. E o público de escola pública que raramente ou nunca foi, é outra resposta. No comportamento e na disposição é diferente. Tem público que é mais popular, tem outro que é mais crítico. Fazer em Hortolândia para um público que não esta acostumado é uma coisa, fazer em São Paulo é outra.
Lya Bueno - Tem diferença em todas as idades e lugares.
Rita Oliveira – Gente, né? Falou que é gente, já é diferente.
Há influência da televisão na cultura de ir até o teatro?
Apolinário - De qual TV que estamos falando? Da aberta? Mas existe TV aberta? A gente vem de uma tradição de telenovelas. Se vende um formato já muito fechado. É isso e acabou. Eu quero que o público que vê novela pare um pouquinho e veja a peça. E cada vez vai pegando alguma coisa. É um trabalho de formiguinha. Não é todo mundo que tem esse olhar de construir uma obra que funcione como formação também. O pensar como a informação chega no público é super importante.
Rita Oliveira - A facilidade de entendimento do que está sendo visto na televisão é muito grande. Não exige nada de reflexão. É tudo muito pronto. E o espetáculo traz a proposta de não tão pronto assim. O espetáculo não trabalha dentro de uma lógica realista com começo, meio e fim. Ele causa estranheza e faz você refletir. Apesar de ter uma televisão no palco e brincarmos com isso, não traz a lógica da historinha. Trabalha o oposto disso.
Apolinário - Vem de um mundo fragmentado, de uma educação de fragmentos, mas se pegar a história fragmentada e colocar no palco, a pessoa estranha. É um provocar se provocando.
Rita Oliveira - Tenta vender um espetáculo para uma escola, cobrando 5 reais por criança e você ouve que não dá, porque eles vão pagar 40, 50 reais para ir no Playcenter.
Daniela Varotto – Ou as crianças vão preferir gastar em lanche.
Rita Oliveira - Mas isso vem da própria direção da escola, do educador não fazer o trabalho de mostrar a importância do teatro, do quanto as crianças também podem se divertir, aprender e evoluir. Não que brincadeira não faça aprender e evoluir. Mas precisava haver um equilíbrio.
Lya Bueno - E essas crianças crescem, né?
Apolinário - A televisão tem um papel, tem uma força que poderia utilizar. Ela entra sem você querer. O que ela vem fazendo? Ela só faz para manter o seu público e não para educar.
Lya Bueno - Hoje é muita rapidez de informação. Não é só televisão. O próprio cinema perdeu público. Eles tiveram que rebolar para levar as pessoas de volta. O acesso está fácil a muita coisa.
Daniela Varotto - E as pessoas não tem essa necessidade, essa cultura de parar, sentar e assistir a uma hora de espetáculo.
Lya Bueno - Ninguém quer parar.
Apolinário – E por que a televisão vai divulgar algo que não atinge a grande massa?
Lya Bueno - Você tem que vender a alma para divulgar em grandes mídias. As vezes o grupo é mundo bom, mas não tem estrutura para fazer esse tipo de divulgação. Já tentei divulgar peças pela internet, mas é tanta coisa rolando.
Rita Oliveira - Eu acho que a divulgação é uma das menos responsáveis.
Daniela Varotto - É cultural. Mas o perfil está mudando.
Apolinário - Não é imediato, mas uma hora você vai ter alguma resposta. Mas para que se tenha resposta são necessárias as perguntas.
Como é viver – e sobreviver – de teatro no Brasil?
Apolinário - Há dificuldade de fazer teatro no mundo inteiro. Está uma crise. Já foi o tempo em que se conseguia viver de bilheteria. Global consegue, mas depende de quem. É tudo patrocínio. A pessoa vai ver o artista, não a peça. Vai da popularidade do artista. É válido, mas nem assim a coisa está boa. Tem alguns grupos que conseguem, mas é um risco tremendo. “Minhas Criadas” só foi possível por que foi aprovada em duas leis e conseguiu captar recurso. E só está aqui hoje por causa disso, dessa parceria entre público e privado.
Daniela Varotto - Outros artistas falam que lá fora não é diferente daqui. Eu acho que em alguns lugares há uma cultura maior. Mas diminuiu muito.
Lya Bueno - Nos lugares onde se consome muito, se produz muito. Tem uma sobrecarga de artista e a maioria não tem trabalho. Tá difícil em todo o mundo.
Qual a influência que a Virada Cultural provoca na divulgação da cultura?
Apolinário - A virada é uma oportunidade. Não sei o que acarreta. Mas você poder ter contato com várias linguagens, vários estilos. O público ter essa oportunidade é fundamental. A cultura é competência do estado. O estado tem que fomentar esse olhar para o público. E aí você vai ver várias linguagens e vai se identificando. Vai criando um olhar, um desejo estético. É fundamental. Move muita coisa. E as trocas entre os artistas participantes, dos encontros dos que produzem, vão surgindo coisas novas. Surge uma comunicação de todo mundo que está envolvido. É muito rico. Antes de qualquer dogma e partido. Tem que acontecer e perceber.



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