As lembranças são fragmentos de como nos entendemos com nós mesmos e, juntas, formam a tal bagagem que carregamos para cima e para baixo. Recordar momentos traz de volta sentimentos, medos e alegrias. E, apesar dos pesares, faz bem. Não seria justo o esquecimento.
Em Aldeotas, Gero Camilo faz brotar, na platéia, esses questionamentos, tratados com tanta leveza e grandiosidade em um palco praticamente vazio de objetos, mas lotado de texto.
Marat Descartes acompanha Camilo e dá vida a Elias, melhor amigo, desde a infância, de Levi. Os dois passam, juntos, por várias fases e situações, que vão moldando a personalidade e o futuro de cada um. Desde um mundo subterrâneo comandado por uma formiga-rainha até um pai bêbado e violento.
Aldeotas é uma obra necessária. Daquelas que após levantar-se da cadeira do teatro o expectador mais sensível não consegue mais esquecê-la. Lembra e relembra das situações de cima do palco e da sua própria história.
Seu texto e seus movimentos dançam juntos numa sincronia perfeita. E os atores, responsáveis por conduzir a plateia, não nos deixam piscar um segundo sequer, causando um envolvimento involuntário.
Tal envolvimento foi, em seu início – e somente no início -, afetado por um simples detalhe que pode ter causado uma mancha na imagem da Virada Cultural em Bauru. O espetáculo estava programado para começar às 15h e o teatro só se abriu por volta das 16h30.
Entretanto, os artistas não carregam a culpa e por isso, nada disso foi levado em conta durante toda a apresentação.
A peça
Gero Camilo é o roteirista de Aldeotas, que nasceu de uma viagem do ator à sua terra natal, Fortaleza. Entre a emoção de voltar às origens e a dúvida de retornar à vida conquistada longe dali. “Quando me formei, não sabia se ficava na minha cidade ou na cidade alheia. Aí eu resolvi, dramaturgicamente, escrever uma peça que me possibilitasse colocar esta questão em cena.”, explica Camilo.
A maneira como ele encontrou de representar a dúvida o fez priorizar o ator, o texto e a iluminação, deixando o cenário para outros planos. Um tapete branco serve como palco para diversas situações e lugares. A tela branca brinca de céu com cor de céu e céu com cor de cor de céu. E papéis espalhados completam a intenção.
“No teatro, o necessário é o ator. Acima de tudo, é importante o corpo humano para daí, criar-se o imaginário.”, ressalta o ator.
A direção de Aldeotas está nas mãos de Cristiane Paoli-Quito, professora de Camilo durante a faculdade e ganhadora do Prêmio Shell por este espetáculo.

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